18 February 2006

Porquê?!
Estou no Minho, hoje não vou para parte alguma e ao mesmo tempo vou a todas as partes, fico aqui sentada…a lareira é o meu rádio, não tenho phones por isso não consigo desligar a musica que vem da rua, as pingas do telhado caiem no peitoril da janela…parecem dedos a estalar uns mais graves outros mais agudos, mas volta e meia já nem os dedos sinto, tudo se transforma, o estalar mais parece uma pegada....pegadas de uma multidão que foge dos assobios do vento acompanhados de gritos monstruosos é o culminar da catástrofe.
A orquestra toca em fortíssimo...e eis que o maestro faz uma pausa inesperada, por momentos chega a desiludir a plateia, o silencio é profundo...
Consigo finalmente ouvir a lareira e só a lareira como se tivesse phones. Uma sensação de que o tempo parou apodera-se de mim…ao mesmo tempo fico sem tempo, tudo parece correr a uma velocidade excessiva não chego a ter tempo para pensar para tentar perceber o que se passa, nem sequer para fazer a típica pergunta, a pergunta mais pequena de sempre e ao mesmo tempo a mais usada…Porquê?! A pergunta não foi feita e a resposta não foi dada...
A orquestra volta a tocar desta vez em forte um forte que transcende o fortíssimo. Estranho! Algo novo se passa!? Olho pela janela é neve, não neve não é certamente porque a neve não canta assim.
Os dedos continuam a estalar cada vez mais rapido…acompanhados do estalar das pedras que quase perfuram o chão…por momentos o chão parece branco, mas os dedos não param de estalar, o vento sopra agora mais do que nunca, cada vez mais forte, o branco rapidamente desaparece, tudo é água, simplesmente água…água da chuva!
O Foco do palco desapareceu à muito tempo, mas alguém se lembrou de acender uns pequenos holofotes artificiais, entro assim no comboio para outra dimensão, a dimensão do artificialismo, do modernismo, a dimensão da sociedade em que vivemos…
O espectáculo continua, um grito possante e avassalador inunda o palco e nos transporta para a escuridão, para os velhos tempos. Acabamos de retroceder no tempo. Onde está o velho candeeiro a óleo?! Não está e o alguém não resolve o problema, o foco do palco à muito que desapareceu! Pela janela entra agora a escuridão…resta então esperar, esperar, esperar, e de que será a vida feita se não de esperar…esperar pela luz, esperar pela noticia que teima em chegar, esperar pelo comboio, esperar pelo próximo…e por muito que esperemos continuamos sempre a esperar…esperar
porquê?!